
Eu me sinto fraca, me sinto pequena, diminuída. Tudo ao meu redor se transforma em algo pequeno e sem vida. Tudo é escuro, nada se salva. Não há nada, não existe luz. Não há salvação… Nada, além de você. Toda essa sombra se alastra dentro de mim, enquanto eu tento gritar e pedir para que ela vá embora, todas essas coisas ruins, os males, tudo. Eu tento te chamar, tento te pedir para me salvar. Mas você não escuta. Por que… Você não precisa escutar. Pela milionésima vez, eu lembro que você tem essa capacidade de me conhecer melhor do que ninguém, e você me lê com tamanha facilidade que passo a me enxergar como um livro surrado, aberto e perdido. Eu não sou nada quando comparada ao que sinto. Eu não significo um único grão de areia, até uma formiga me ganha. Eu sou pó. E você pode me destruir a qualquer minuto… Mas não. Você prefere me torturar, me deixar ser pó e me contentar com isso. Você quer que eu viva na desgraça apenas para ver sua glória. E a pior parte disso tudo? Eu nem sequer me importo.
Então, é isso. Você me destruiu tanto a ponto de que eu não tenho nem coragem de me preocupar comigo mesma. Perdi a habilidade de me preocupar com quantas feridas eu vou sair quando tudo isso acabar. Me tornei masoquista ao nível de deixar a minha porta aberta, e mandar uma mensagem dizendo que você pode entrar e sair quantas vezes quiser. Desde que não se vá para sempre, tudo bem. Desde que permaneça por poucos minutos, eu não me importo. Eu virei uma dessas garotinhas desesperadas por amor e dependentes do amado que sempre achei ridículas. Ainda acho, mas agora eu as entendo. E acho que, no fundo, você também entende. Por que você sente o mesmo que eu. Só não tem a força necessária para admitir.
Por que, se não sentisse nada, nem sequer uma faísca, o que traria você aqui? O que faria você ficar comigo? No final, garoto, você sempre volta. Não importa quantas vezes se vá, quantas vezes me fira. Não importa o quanto você finge que não está nem aí para o que eu faço com a minha vida. É só eu mudar meu percurso, só eu desviar da rota e tentar te esquecer, que eu olho para o lado e você aparece. Você se veste de menino inocente e me olha com desse jeito que me faz ter vontade de desmoronar. O seu cabelo se bagunça mais ainda, o seu sorriso se abre dessa maneira sarcástica de quem me pede desculpas. Tudo bem, amor, você não fez nada. A culpa é minha, eu que fui burra o suficiente para te deixar entrar. Pode continuar com esse peito erguido e as suas mãos fortes. Pode continuar me confortando com a sua voz de veludo. Tudo bem, eu já me acostumei. Não adianta quantas vezes eu olhe para o lado, para frente ou para trás… Eu sempre volto a enxergar você. Sempre volto a ver o mesmo sorriso de canto e os olhos brilhantes. Sempre me apaixono pelos olhos fechados na hora de rir, pelos gestos exagerados e a seriedade forçada. Pela forma como você se irrita e desirrita facilmente. Pela forma como nunca diz o que eu quero, mas sempre faz aquilo que eu preciso. Eu estou cansada, mas não consigo desistir.
Se você não sabe o que isso significa, não sou eu quem vai te explicar.
- Você pretende ficar divagando as suas ideias, ou vai falar comigo também?
- Tem outras opções?
- Pra ser sincero… Não. – e o mundo todo fica tão mais fácil e simples quando você me olha e sorri. Tudo fica tão mais calmo.
- Então, que tal começar me explicando por que você me trouxe aqui?
- Eu gosto desse lugar. Você não?
- Um parque de diversões. Sério, Henrique? Enquanto os namorados das minhas amigas as levam para restaurantes caros e motéis, você me trás pra comer algodão doce?
Por um minuto eu te sinto trancar a respiração e parar. Você fica de frente para mim e me encara com esse meio sorriso no canto enquanto ergue a sobrancelha. Eu fico pensando que fiz algo errado, mas você não largou minha mão. A apertou com mais força ainda, para ser sincera. Eu não te entendo, fico repassando a minha última frase e não encontro o erro. Além de…
Droga.
- Namorado?
Sinto minhas bochechas corarem e nenhuma resposta se passa na minha cabeça. Droga. Droga. Droga. Cadê todos aqueles diálogos prontos de filmes que poderiam ser usados nesse momento? Cadê o cara com a roupa esquisita que faria com que ele se distraísse e não percebesse o que eu disse?
- Henrique…
- Estou esperando.
- Que inferno. Tu entendeu o que eu quis dizer.
- Claro que eu entendi. Você me chamou de namorado.
- Não, eu não chamei.
(Mentira.)
- Ana.
- Não fala nada, esquece o que eu disse. Seguindo em frente. Deu, pronto, acabou. Olha só… Aquilo é uma roda gigante? Nossa. Sempre quis andar numa dessas. Vamos? Aproveitar que a fila ta pequena. Olh…
Voltamos a caminhar em direção à roda gigante, e eu sinto o alívio percorrer meu corpo. Talvez, apenas talvez, você ignore essa coisa impensada e a gente recomece. Muito mais provavelmente, eu tenho certeza, você apenas me deu um tempo e vai me cobrar respostar mais tarde.
- Vamos. E eu vou fingir que isso não é só para escapar da conversa, porque você morre de medo de altura. E vou fingir que não ouvi nada do que você falou, namorada.
Eu bufei e você riu de mim, como sempre. Mas ignorou e foi falar com o cara para que nós pudéssemos ir à maldita roda gigante. Que eu realmente tenho medo. Morro de medo. E… Eu preciso aprender a pensar antes de falar.
Sento no banquinho e aquele negócio de aço nos tranca ali dentro. Não existem formas de sair. Eu estou presa em um estúpido banquinho de roda gigante. Com você. Tranco a respiração, também. E, só quando a roda começa a se mexer, eu percebo que me meti em uma furada imensa.
- Ana.
- Henrique.
- Então, eu não sei se você percebeu, mas como tu é uma garota esperta, já deve ter se dado conta por que… Você está presa. Comigo.
- Eu meio que estava pensando nisso.
- E o que acha dessa situação?
(Aterrorizante. Horrível. Amedrontadora. Maravilhosa.)
- Não vai responder?
Vou. Assim que essa coisa diabólica parar de girar e eu puder abrir meus olhos novamente. Te respondo assim que a minha mente conseguir assimilar qualquer coisa que não seja meu medo absurdo de altura e… A sua mão na minha. Por que diabos você está segurando a minha mão? E por que essa coisa dos infernos parou bem quando nós estamos…
- Puta. Que. Pariu.
- Anna?
Eu te olho assustada e você parece se divertir com o meu surto.
- Eu não quero te apavorar nem nada, mas… Nós estamos trancados. No alto. Na realidade, bem na ponta da roda gigante.
- N.. Nós O QUÊ?
- Ei.
(Silêncio.)
- Henrique, nós vamos morrer. Meu Deus do céu, nós vamos morrer!!
- Ana.
(Silêncio.)
Eu sinto você apertar minha mão e, com a outra, passar o braço nas minhas costas.
- Agora, acho que nós temos coisas muito interessantes para conversar. E, aqui em cima, você obviamente não pode fugir. No final das contas, acho que deu tudo certo. - (Silêncio.) – Então, por que você não começa me dizendo por que saiu correndo da minha casa aquele dia?
- Eu já disse, Henrique. Eu não posso ficar com alguém que não tenha coragem de falar abertamente sobre os seus sentimentos por mim. Eu… Eu preciso de você. Parece até meio psicótico, mas meu dia fica melhor só de ouvir tua voz. Isso não é normal, não é nem mesmo saudável.
- Então, você fugiu.
- Não é muito diferente do que você tem feito durante todo esse tempo.
(Silêncio.)
- Ana.
- Diga.
- Isso tudo, essa coisa que nós temos, é muito mais complicada do que parece. Você acha que três palavras podem nos salvar, mas… Não vão. Nós vamos passar alguns meses maravilhosos, e depois tudo pode acabar. Eu não sei o que restaria de mim se isso acontecesse. Você acha que é só com você, mas não é, Anna. Eu também preciso de ti. Eu acordo pensando em te mandar mensagem, durmo pensando em te ligar. Tudo isso por que passar 24hrs sem saber como você está é bem pior do que ter que engolir meu orgulho. Tudo isso por que, quando acabar, eu não vou ter perdido apenas a droga do amor. Eu vou perder minha melhor amiga também.
(Silêncio. Respiração. Silêncio.)
- Henrique, tenta me entender, por favor. Você quer que eu acredite em tudo isso, e eu também quero acreditar, mas… Eu não consigo. Se você sentisse o mesmo, se me quisesse da maneira como eu te quero, nenhuma outra bastaria. Eu não teria que conviver com milhares de vagabundas entrando e saindo do seu apartamento. Se você desejasse nós dois, não ficaria colocando pedras loiras no nosso caminho. Nós dois temos tudo necessário, tirando a confiança em nós mesmos. Eu sei que você gosta de mim, sei que precisa. Mas eu também sei que você não me ama. Esse é o motivo pelo qual você não consegue me dizer… Você não sente.
A brisa noturna bate nos meus cabelos esvoaçantes e traz seu cheiro direto para mim. Tudo seria tão mais simples se você simplesmente não tivesse esse efeito sobre meu corpo, se minha pele não se arrepiasse com o mínimo contato com a tua. Se a sua mão não fosse tão macia e teus lábios tão convidativos. Tudo seria tão mais fácil se não fosse você.
- Ana.
(Silêncio.)
- A vida é feita de escolhas.
- Eu sei disso.
- Sabe?
- Claro. Eu escolhi ser você, corpo e alma. Escolhi deixar você tomar conta de mim e me ter por inteira. Você escolheu não me deixar entrar.
Sua risada ecoa pelos meus ouvidos, e eu sinto toda minha espinha se curvar por você.
- Sinceramente, Anna, às vezes parece que você não tem a mínima noção do efeito que tem sobre mim. Parece que você não sabe as coisas que eu faço pensando em você, ou como eu sempre imagino você em minhas mãos, enquanto alguma outra garota geme e diz meu nome. Você não tem ideia de como eu queria que fosse tu… Mas não é. Eu tive que aprender a conviver com a previsão de que talvez nunca seja. Isso não quer dizer que eu me contente com as outras, significa apenas que eu prefiro isso a viver sem nenhuma. Mas…
(Silêncio.)
- Você é a única garota por quem eu mudaria.
- Bem, isso é muito tranquilizante.
- É mesmo, por quê?
- Por que você é o único garoto que eu perderia meu tempo mudando.
Você dá um desses sorrisinhos de canto de lábio e me olha com uma malícia palpável, tanta que eu só tenho tempo para agradecer por estarmos presos por esse maldito cabo de ferro antes dos teus lábios aterrissarem em frente aos meus, nossas testas se colarem e eu sentir tua respiração junto à minha. Por meio segundo, eu pensei em fugir. Mas, então, você fechou o espaço entre nós e escapar era, definitivamente, a última coisa que se passaria pela minha mente.
Afinal, mesmo que nós dois briguemos em 99% do tempo, mesmo que a gente discuta e diga que nada nunca vai ser o bastante. Mesmo que eu odeie teu jeito de dono da verdade e você deteste minhas críticas. Mesmo que a gente não tenha nascido para sermos, brincamos com o fogo e driblamos o destino. Por que, mesmo com tudo sendo contra, nós somos. E somos para valer. Se não fossemos, por que meu corpo todo reagiria dessa forma ao teu? Por que meus lábios se abririam e deixariam você tomar posse deles? Eu só enxergo você, só quero você. Você está mais dentro de mim do que eu mesma, você tem mais propriedade sobre meu corpo que a dona dele. Tudo que eu sinto, vejo, ouço… Todos arrepios e exclamações. É nesses momentos que eu não vejo mal nenhum em deixar a tua mão passar por todo meu corpo, tocando lugares impróprios e me marcando a fogo. Você me beija com uma possessividade que não me deixa dúvidas – nenhum outro jamais será capaz de chegar aos seus pés.
(Eu sou tua.)
Devagar, você afasta nossos rostos para que fiquemos a milímetros. Teus olhos se abrem e sua voz está letárgica e arrastada, tão semelhante à minha. Suas pupilas estão dilatadas e eu não consigo ver outra coisa além de negritude e… Desejo.
- Ana.
- Henrique.
- Eu não penso que isso seja uma perda de tempo.

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São exatamente 01h10 da madrugada e aqui estou eu, pensando em você. Cá entre nós, você não me deixa nem dormir. Deitei, liguei a televisão e chorei. Chorei pra caralho. Chorar em pensar que estou te perdendo. Chorar em pensar que não sou boa pra você. Sabe, agarrei meu travesseiro e disse para mim mesma, “tudo vai ficar bem”, mas sem esperanças. Você é perfeito pra mim. E muito imperfeito também. Que madrugada fria. Você poderia estar aqui né? Que saudade daqueles suas mensagens que me faziam sorrir após um dia cheio de mágoas. Aquela que dizia “estou com saudade, princesa”, ah aquela mensagem, ainda está guardada sabia? Ela me trás tantas lembranças boas. Porque você sumiu? Volta a ser o meu príncipe? Por favor. Agora vou tentar dormir, prometo. Só me promete uma coisa antes? Sonha comigo? Sonharei com você, como todas as outras noites. Mariana Marques (necessidades)